Nelson Rodrigues dizia admirar a burrice por ela ser eterna, e a classificava como uma “força da natureza”. Já um amigo da minha infância vivia afirmando que “burro não se ensina, se encilha”. Nelson foi um gênio. Meu amigo, de burro nada tinha, nada tem. Se muitas vezes é difícil definir e identificar a inteligência, perceber a burrice é simples demais. Nem é preciso tanta esperteza para, diante dela, reconhecê-la. Algumas vezes, aliás, pode até ser percebida como velha conhecida, companheira de todas as besteiras ditas, feitas e repetidas ao longo de uma existência marcada pela incapacidade de aprender.
Mas o pior da burrice é que seus portadores, embora a reconheçam com frequência nos outros, têm grande dificuldade de notá-la em si, e saem por aí desfilando e exibindo a sagacidade que não possuem, e experiência que jamais será adquirida, a sabedoria que sequer almejam e a cultura que no fundo desprezam. “O mundo é dos espertos”, diz um controverso ditado. Controverso e mal interpretado, porque ninguém tem culpa da ser burro, mas não pode jamais ser perdoado por superestimar a própria inteligência e subestimar a alheia. O maior sinal de esperteza é a dúvida. Sozinha, ela é capaz de tornar qualquer um menos merecedor do encilhamento.
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