Muitas obras genais da literatura universal estão escondidas e ausentes dos catálogos das grandes editoras. Por alguma razão, são subestimadas pelos curadores e desconhecidas da maioria dos leitores, mesmo dos mais habituais e experimentados. É o caso de Stoner, romance de John Williams.
William Stoner é um professor universitário de origem humilde. Seus pais, e ele próprio, até ingressar na universidade, eram agricultores. A vida dura, rude e simplória era sua realidade. Mas, ao iniciar o curso de ciências agrárias, Stoner se depara com a literatura e muda o rumo de seus estudos. Forma-se em Língua Inglesa, torna-se mestre, doutor e, ao final, acadêmico conceituado entre alunos e colegas.
Mas, apesar da escalada intelectual, a marca maior da personalidade de Stoner permanece sendo, até o fim, seu estoicismo forjado no berço, sua força resiliente e inquebrantável, adquirida no trabalho pesado e na convivência com a pobreza. Stoner simplesmente não se deixa abalar, ou, quando abalado, respira fundo, reconstitui sua substância e segue adiante. Sem revolta, sem barulho, sem queixas.
Stoner não busca a glória, não ambiciona dinheiro, fama ou poder. O conhecimento é para ele um fim em si mesmo e a academia é o campo que escolheu cultivar, sem espetáculo, competição, comparações ou exibicionismo. Ele faz o que tem de ser feito, suporta o que precisa ser suportado, constrói sua biografia de forma lenta, paciente e constante.
A vida de Stoner é trágica, como, de resto, todas as vidas o são. Mas nele a tragédia ganha contornos de sabedoria impávida, de abnegação e aceitação. A vida é como ela é. O amor, a família, o trabalho, as amizades e inimizades, tudo é dramático e complexo, e a morte, final implacável, é aceita, encarada e enfrentada com coragem e dignidade.
O romance de John Williams merece ser mais lido. É um presente para quem ainda acredita no poder silencioso da literatura.
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